Cultura Pop

A street art de Buenos Aires

Por Simone Ribeiro, @moluska (Publicado originalmente em fev/11)

Muros, casas, fábricas e armazéns abandonados, a urbanidade da capital portenha juntamente com o momento político do país é a combinação perfeita para que a arte de rua se espalhe por Buenos Aires. Os jornalistas Guilherme Zaiuth e Matt Fox-Tucker  reuniram toda essa diversidade em palavras e fotos no livro Textura Dos: Buenos Aires Street Art. O Midiativa conversou com Guilherme para saber mais sobre a experiência de fotografar a arte de rua e graffiti de Buenos Aires.

MA: Quando e como surgiu a ideia de escreve o livro? Você já se interessava por arte de rua antes?

Sempre me interessei por qualquer tipo de arte urbana, desde música, graffiti, dança, etc. A ideia do livro surgiu após passar um tempo fotografando esporadicamente os desenhos nas ruas de Buenos Aires. Quando conheci o Matt, ele também tinha algumas fotos de graffiti de alguns bairros.

Então, resolvemos explorar e encontrar diferentes artistas fora das áreas centrais. Foi incrível por que não tínhamos muita ideia de onde ir ou que caminho tomar. Descíamos do ônibus com um mapa e começávamos a caminhar. Algumas vezes encontrávamos muros com desenhos muito bacanas, outras, nada. A partir do momento que já tínhamos vários bairros distintos, procurei um editor.

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Ele gostou muito e deu a ideia de voltar com algo mais concreto, um PDF com texto bilíngüe (inglês e espanhol), fotos e diagramação bacana. Voltamos depois de um mês com projeto desenhado por uma designer brasileira, Ana Paula Megda. Dessa maneira, o editor nos colocou em contato com editoras internacionais. Fechamos com a Mark Batty de Nova Iorque. O interessante desde livro é a maneira como foram separados os capítulos, por bairro, ou seja, cada bairro tem um pouco da historia local em inglês e espanhol, os artistas encontrados e, algumas vezes, onde a arte pode ser encontrada.

MA: Como aconteceu a parceria com o jornalista inglês Matt Foz Tucker?

Ele é inglês e já morava lá. Nos conhecemos nas aulas de espanhol da Universidade Federal de BA.

MA:  O nome “Textura dos” tem algum significado especial?

Sim. O nome vem do livro anterior Textura: Valencia Street Art lançado em 09. A editora sugeriu que o nome fosse como uma seqüência em outra cidade. E a ideia do titulo Textura é que as ultimas paginas do livro são detalhes das paredes grafitadas, como buracos, rachaduras, cores e quem compra o livro pode baixar essas “texturas” em alta resolução no site da editora.

nanu4MA: Como você definiria os graffitis de Buenos Aires? A arte de rua em Buenos Aires é muito diferente da que encontramos nas ruas do Brasil?

Cada artista tem seu próprio estilo usado nas ruas das grandes cidades. Não importa onde. A diferença la é que depois da crise de 2001, eles começaram a pintar em bairros mais centrados, como uma maneira de se libertar dos problemas que tomavam o pais. E também em grande escala, como casas inteiras, pontes e fabricas.

MA: Temos Banksy na Inglaterra, Os gêmeos no Brasil. Quem chama mais a sua atenção no graffite argentino?

Meus preferidos são os primeiros a me chamarem a atenção e fotografar, como Gualicho, Pum Pum, Groulou. Tem uma estória bacana do Grolou: ele é francês e quando se mudou para BA começou a oferecer para as pessoas do bairro de Barracas se ele poderia pintar a fachada das casas. Sem cobrar nada. Morou cerca de dois anos neste bairro, hoje mora na cidade de Quilmes. Ele conta que em Buenos Aires se pode pintar a vontade, um paraíso para a street art, enquanto que na França as paredes são cinzas. Isso devido a um funcionário da prefeitura que tem a função de pintar todos os graffitis de cinza. Para Groulou essa pessoa deveria ser chamada de anti Cristo.

MA:  Você encontrou algum tipo de dificuldade para fotografar nas ruas de Buenos Aires ou falar com os artistas sobre as obras?

Nenhuma. Andei por todos os 48 bairros de Buenos Aires com minha câmera. Sempre encontrava pessoas divertidas e artistas. Todos conversavam comigo. Claro que houveram  algumas vezes de fugir de gente em alguns bairros mais perigosos, porem, nada alem disso. Foi incrível para conhecer a cidade de outra maneira. A diferença de cada bairro, os habitantes, a estória. Andar de trem, ônibus, caminhar muito.

MA: O livro foi feito enquanto você morava em Buenos Aires. Você pretende viajar por outros países para escrever um próximo livro sobre graffiti de outras capitais?

Textura Dos acabou de nascer. Prefiro curti-lo e divulgá-lo agora. Mas claro que seria ótimo lançar mais livros de outras capitais.

MA: Além de graffiti e arte de rua, sobre o que mais gosta de fotografar?

Gosto de fotografia documental, contar historia com imagens. Se envolver, estar em lugares que nunca imaginei antes, ser recebido por pessoas de cultura completamente diversa da minha. Seja religiosa, cultural, artística ou ideológica. Em cada experiência se aprende muito. E também de street photography, caminhar com a câmera na mão e fotografar momentos cotidianos, retratos, etc.

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