Literatura

Entrevista: Carlos Maltz

Por Simone Ribeiro, @moluska (Publicado originalmente em jan/11)

Filosofia pop que bebe em fontes junguianas, come em mesas hollywoodianas e dorme em redes tropicalistas. Assim é definido Abilolado Mundo Novo, primeiro livro de Carlos Maltz, ex-baterista e um dos fundadores da banda Engenheiros do Hawaii.

Ao se aventurar pela literatura, Maltz consegue trazer para o livro a mesma versatilidade, em diálogos, dos tempos que assumia as baquetas do grupo lendário gaúcho. O MidiAtiva falou com Carlos Maltz sobre o Abilolado Mundo Novo e sua admirável incursão na carreira literária.

MA – O Abilolado Mundo Novo é um livro onde você discute assuntos diversos como filosofia, mas de uma maneira pop, como mesmo descreve, em que todo mundo possa entender o assunto e etc. Como surgiu essa ideia toda no papel?

Carlos Maltz – Bem, durante alguns anos, eu mantive uma comunidade de diálogo na Internet, A COM – UNIDADE – 1 – MANOS. De alguma forma que eu não sei explicar, a comunidade ficou muito interessante, pois apareceram pessoas com compreensões muito diferentes para a conversa, o que não é uma coisa comum, pois essas comunidades geralmente são compostas por pessoas que pensam de forma parecida.

Então, um dia eu pensei: rapaz, estão acontecendo conversas aqui que deveriam, de alguma forma ser registradas, pois essa mistura de conteúdos bem complexos, com uma forma muito simples de falar, é única. Assim surgiu a idéia de escrever um livro que, de alguma forma, retratasse aquelas conversas.

MA – Algumas pessoas que te inspiraram a escrever o Abilolado Mundo Novo vieram da COM-UNIDADE. O que significa o termo COM–UNIDADE?

Maltz – Com-unidade é isso mesmo, a gente ser um monte de gente diferente, mas com algo nos unindo: o fato de sermos todos 1-manos. A diferença da COM-UNIDADE-1-MANOS, é que aqui acontece o verdadeiro diálogo, que é a conversa entre pessoas que pensam diferente.

Penso que esse é o grande lance do livro, e desta tal de “Era de Aquário” que está chegando: o diálogo. Coisa ainda rara nessas bandas terráqueas. Na maioria das vezes o que a gente vê, é conversa entre pessoas que pensam de maneira parecida. Mas o grande lance, penso eu, é a conversa de igual para igual entre os diferentes.

maltzlivroMA – O seu conhecimento astrológico ajudou a escrever o livro. Como a astrologia entrou em sua vida?

Maltz – Comecei a ler livros sobre Astrologia, no início dos anos 90, quando ainda era integrante dos “Engenheiros do Hawaii”. Naquela época eu viajava muito com a banda e passava muito tempo em quartos de hotel. Sempre fui um leitor voraz. Me apaixonei pelo assunto e devorei tudo que existia publicado no Brasil.  Sempre me interessou a vertente mais psicológica da Astrologia, os autores junguianos.

Nunca me interessei por esse negócio de adivinhação do futuro. Para escrever o livro eu tinha um desafio muito grande pela frente: como reproduzir a espontaneidade do ambiente da COM-UNIDADE-1-MANOS? Fiz então um sorteio de números aleatórios que geraram datas, que geraram mapas astrológicos.

Fixei apenas os anos de nascimento, para que aqueles caras que estavam “nascendo” naqueles mapas, tivessem por volta de vinte anos de idade, que era a idade média da galera da COM-UNIDADE. Colei os mapas na parede e comecei a “conversar” com aqueles caras.  E eles criaram vida dentro da minha cabeça, criaram suas próprias opiniões. Eles dialogam, discutem comigo o tempo inteiro.

MA – O título do livro nos remete a obra de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, claro. Você diz que o Abilolado Mundo Novo é aquele em que nos encontramos agora. Como você define  esse mundo abilolado em que vivemos?

Maltz – Abilolado é uma espécie de maluco light, doido diet. hehehee. Mas eu acho isso, na verdade, um eufemismo para descrever a situação em que nos encontramos, que está mais para “enlouquecimento global”, que inclusive é o nome de um dos capítulos do livro.Estamos numa esquina do tempo. Fim do mundo de Peixes, e começo do mundo de Aquário. O problema é que aqui onde nos encontramos, o paradigma da Era que está terminando já está indo pro saco, mas o novo paradigma ainda não está instalado. Estamos nesse hiato, nesse vazio de Eras… nesse vácuo, perdidos, sem mitos nem referências… Abilolados… Enfim…

MA – Como escritor, quais sãos os autores que te inspiram?

Maltz – O próprio Huxley, é óbvio, Dostoievski e Kurt Vonnegut Jr.

MA – Como músico quais os bateristas que inspiraram a sua carreira?

Maltz – Jonh Bonham e Neil Peart.

MA – Aliás, Neil Peart do Rush, também é um baterista que se aventura no mundo da escrita. Além de ter escrito as letras da banda. Você  já leu alguma coisa que ele escreveu?

Maltz – Bem, as letras da banda, né. Não li o livro do Peart.  Na verdade, gosto muito mais dele como baterista do que como escritor…hehehe… Espero que meus leitores não digam o mesmo a meu respeito… hehehe…

MA – Planos ou anotações sobre um segundo livro já em mente?

Maltz – Tem uma idéia me atormentando. Talvez eu tenha que fazer alguma coisa com ela, mas ainda não quero falar nada sobre isso. Tenho a esperança de que ela vá embora e me deixe em paz. Se não for, eu escrevo o livro que ela quer que eu escreva…

Confira o vídeo de lançamento do livro na Livraria Cultura:

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