Música

Entrevistão: Charme Chulo

Por Simone Ribeiro, @moluska (Publicado originalmente em nov/10)

Em meio à mesmice e porque não dizer chatice, que anda a música tupiniquim, o rock caipira dos curitibanos da banda Charme Chulo é a prova de que há salvação para o som, independente, feito em português. O MidiAtiva conversou com o guitarrista Leandro Delmonico para saber um pouco mais sobre a velha boa onda caipira que faz da Charme Chulo, uma das bandas mais criativas do país.

MA- Para começar, a clássica pergunta: de onde veio a ideia do nome Charme Chulo?

Leandro Delmonico: Eu freqüentava com o Igor (vocal) um bar muito conhecido aqui em Curitiba, onde se podia ouvir as novas tendências do rock inglês. Na época estávamos enjoados daquele clima forçado e achamos tudo muito “charme chulo”. Víamos pessoas charmosas, desprovidas de conteúdo, de Brasil  e com uma certa vergonha de ser caipira (risos).

MA- A banda já está há bastante tempo na estrada, desde 2004. Como é continuar fazendo rock em um momento em que as bandas que se destacam no Brasil, atualmente, são coisas como Restart e outras do gênero. Ou seja, não há muita criatividade na praça (risos).

Leandro Delmonico: É um pouco constrangedor ver grupos de música infantil representando esse posto. Hoje temos plena certeza de que o verdadeiro rock brasileiro está no independente, não resta outra alternativa a não ser torcer para que esses grupos cheguem ao grande público. Me sinto orgulho por fazer parte disso, acho que ainda chocamos, geramos desconfiança e, para mim, isso é ser uma banda de rock.

charme chulo_1MA: Uma pergunta meio batida, mas que tem a ver com a anterior. Dá para viver de rock independente no Brasil?

Leandro Delmonico: Acho que isso está se tornando possível aos poucos. Hoje já conseguimos pagar contas com música própria, mesmo assim, falta um bocado para viver dignamente de rock. Eu diria que receber no independente é algo recente, que veio com a ajuda da internet, precisamos de um tempo parar saber se teremos uma “alternativa” auto-sustentável.

MA: De onde vem essa mescla de influências do Charme Chulo? Podemos rotular o som da banda como rock caipira?

Leandro Delmonico: Rock caipira é o melhor rótulo. Gostaríamos de nos apropriar da música caipira com a mesma naturalidade com que o rock incorporou o country, mas infelizmente o sertanejo brega se alastrou por aí e deixou a verdadeira música de raiz um pouco apagada. Restou aos estudiosos da viola e as bandas malucas manter o movimento vivo (risos).

MA: Quais são as principais influências musicais da banda e o que vocês têm ouvido atualmente?

Leandro Delmonico: Nossas influencias são diversas, mas na hora de explicar o som do charme chulo gosto de me ater ao punk e pós punk (The Clash, The Smiths, Violent Femmes) e a música brasileira (Almir Sater, Mutantes, Tião Carreiro, Raul Seixas entre outros) No dia a dia cada um escuta uma coisa diferente, acho que batemos o gosto quando o negócio é rock nacional, aí vamos de bandas parceiras (Suéteres, Jair Naves, Anacrônica, Sabonetes, Vanguart, etc).

MA: De onde saiu a inspiração para letras como Mazzaropi Incrimidado e Decoradores comem chuleta, que são bastante peculiares.

Leandro Delmonico: Os títulos são um caso a parte. Essas duas músicas são uma prova disso.  Tínhamos o titulo antes de qualquer esboço da canção. Isso faz parte do universo da banda. Como muita coisa já foi dita na música, procuramos escrever com um foco diferente. O Igor sempre lembra que nossa maior crítica não é política, mas sim cultural, então usamos muito das banalidades que normalmente não são destacadas. Nossas letras são simples, normalmente elas são diretas, com um tema definido. Não gostamos muito de letras enigmáticas, daquelas que o público fica imaginando o cara usando drogas para escrever (risos).

MA: O que mudou no som da banda desde o primeiro Ep “Você sabe muito bem onde eu estou”?

Leandro Delmonico: Muita coisa. A formação da banda, nossa qualidade musical e o principal, conseguimos equilibrar melhor a proposta da banda nos dois discos posteriores.

MA: Por que vocês resolveram colocar o Cd Nova Onda Caipira para ser baixado gratuitamente no site de vocês? Vocês acham que essa pode ser uma boa maneira de promover ainda mais o Cd também?

Leandro Delmonico: Sem dúvida. Tínhamos um acordo com o nosso selo de não disponibilizar os discos para download,  chegamos a vender um bom número de CDs nos shows, mas a banda sempre foi a favor de colocar tudo para baixar. Nisso tudo percebemos que o verdadeiro fã vai querer ter o disco físico em casa.

MA: Fale um pouco da produção dos vídeos da banda. Fala comigo, Barnabé! é um dos vídeos mais bacanas e geniais produzidos.  De onde veio toda a concepção do Barnabé sem rosto e etc. Deu pra andar mesmo de bicicleta com aquela máscara? (risos).

Leandro Delmonico: Tivemos a sorte de encontrar pessoas competentes e que admiram o trabalho da banda. Nosso último clipe “Nova onda Caipira” – dirigido por Rafael Barione –  foi produzido em São Paulo, os outros três gravamos em Curitiba com a produtora destilaria do audiovisual. Foram eles que tiveram a idéia para “Fala comigo, Barnabé!”. O curioso disso tudo é que a proposta para o clipe era outra, mas a gente sempre esbarra no orçamento, hehe.

Então o pessoal interpretou a letra e apresentou aquilo pra gente, participamos pouco do trabalho. O ator que interpretou o Barnabé era uma figura, principalmente por não ser ator, ele contribuiu muito. Era muito complicado permanecer com aquela mascara, ela tinha pequenos furos nos olhos e no nariz, o que ajudou ele a  andar de bicicleta por exemplo. Temos muito orgulho dos nossos clipes, acho que para uma banda independente temos um bom número de vídeos.

charme chulo_3MA: Aliás, vocês curtem produzir os vídeos da banda e participam do vídeo e da produção. Como é essa relação da banda com os vídeos que produzem?

Leandro Delmonico: No começo a gente participava mais da criação, mas acho que isso acaba dificultando um pouco as coisas, a não ser que a idéia venha toda pronta, como foi o caso de “Piada Cruel”.  Nossos dois últimos clipes ficaram nas mãos dos diretores  e gostamos muito do resultado.  Acho importante a pessoa que começou a ideia ir até o final.

MA: Curitiba tem um cenário forte de bandas alternativas e que ao mesmo tempo é diferente do cenário de rock gaúcho ou paulista, por exemplo. O que você acha que caracteriza o rock curitibano e paranaense em geral.

Leandro Delmonico Gosto muito da cena curitibana e paranaense. Acho que a diferença de estilos é a maior virtude, não da para generalizar como o rock gaucho, por exemplo. Basta citarmos algumas bandas como Nevilton, Copacabana Club, Chucrobillyman e o próprio Charme Chulo para notarmos essa variedade. Acho que hoje o Paraná tem a melhor cena do país.

MA-  Como estão sendo os shows da banda esse ano: Alguma chance de tocarem em Santos?

Leandro Delmonico Fizemos muitos este ano, mas agora resolvemos adotar uma postura para melhorar as apresentações, menos shows e mais qualidade.  Estamos viajando desde 2005 e isso ensinou muita coisa pra gente, conquistamos vários fãs com as apresentações, mas agora vamos tirar um pouco o pé do acelerador e pensar em música, até porque o disco “Nova Onda Caipira”  já está com 1 ano. No entanto, uma das coisas mais legais é tocar pela primeira vez numa cidade. Estamos negociando nosso debute em Santos com o SESC, espero que role para o começo do ano que vem!

Fotos: Gabriela Nakamura e Eduardo Ribeiro. Quer saber mais sobre o Charme Chulo? Acesse o site, facebook, twitter ou myspace da banda.