Cultura Pop

O melhor B-Boy do mundo!

Por Simone Ribeiro, @moluska (Publicado originalmente em dez/10)

Apenas 23 anos e um passaporte cheio de carimbos importantes. O mais recente deles aconteceu em novembro, no Japão, onde Fabiano Carvalho Lopes ou Neguin, como é conhecido no mundo do break dance, conquistou a primeira posição do Red Bull BC One, a Batalha Internacional de B-Boys.

Realizada desde 2004, sempre em uma cidade diferente do planeta, a competição mundial já passou por Biel (Suíça/2004), além de Berlin (2005), São Paulo (2006), Johannesburgo (2007), Paris (2008) e Nova York (2009). Esta foi a primeira vez que Tóquio recebeu a disputa.

Em sua segunda participação na Batalha de B-Boys, Neguin já figura entre os grandes nomes do cenário internacional do break dance. Atualmente vivendo entre Nova York e Londres, o B-boy iniciou a sua carreira em Cascavel, sua cidade natal, aos 14 anos de idade, quando ganhou o seu apelido. “Era assim que meu professor de capoeira me chamava”, conta.

Com uma vida um tanto quanto agitada, Neguin dá aulas de break dance; é juiz em batalhas de B-boys e ainda integra o grupo de dança do London Dance Company, no show Blaze.  Em meio a essa agenda apertada, o MidiAtiva conseguiu uma entrevista exclusiva com Neguin, onde ele conta um pouco da carreira, de suas conquistas e de como é ser número 1 do mundo!

neguin_4MA: Quando e como começou a sua história como B-boy no Brasil?

Neguin: Comecei em 2002, na cidade onde cresci em Cascavel/PR. Estava pesquisando alguns vídeos sobre capoeira na internet quando, automaticamente, apareceu um vídeo envolvendo Breaking com música de capoeira mixada por um DJ americano. Então surgiu dali o interesse pela dança.

MA: O que inspira teus movimentos dentro do break dance?

Neguin: Tudo que eu aprendi na minha vida, todo o meu conhecimento, todas as minhas viagens são uma espécie de retrospectiva do que eu vivo e estou vivendo! Meus movimentos são inspirados em capoeira e artes marciais no geral, e em outros estilos de dança.

MA: Qual a sua trilha sonora ideal para praticar o Break dance?

Neguin: Break Beats, Rap Underground, Funky music como, por exemplo, James Brown. Enfim, qualquer outro estilo de música que te motive a dançar. Pode ser até mesmo Rock, R&B, Classic, vai do gosto de cada dançarino.

MA: Quando foi a sua primeira competição nacional como B-boy?

Neguin: Meeting Hip Hop em São Paulo, 2006, no qual eu fui campeão.

MA: Como é competir internacionalmente e agora ser o número 1 da Batalha Internacional ?

Neguin: Venho competindo internacionalmente há cinco anos, já ganhei e já perdi muitos outros importantes campeonatos. Isso é o meu dia a dia, ser campeão mundial é apenas mais uma conquista de cada competidor, que continua sempre sendo uma nova experiência.

MA: Como foi competir no Japão? O público é diferente dos outros lugares por onde já competiu?

Neguin: Sim, cada lugar tem suas diferenças quando se trata do público, mas todos sempre vão para prestigiar e transmitir boas energias para nós, dançarinos. No Japão foi incrível, pois realmente eles têm uma energia muito forte como torcedores. Torcem por todos que estão batalhando no momento, todos são favoritos!

neguin_3MA: Qual o diferencial dos B-Boys brasileiros em sua opinião?

Neguin: O diferencial é simples: brasileiros sabem aproveitar mais o que tem ao seu redor. Temos muitas culturas em nosso país. Quem souber aproveitar o que o Brasil oferece será sempre diferente.

MA: Você tem apenas 23 anos. O que você acha que te levou a conquistar o posto de B-Boy número 1 tão rapidamente em sua carreira?

Neguin: Sou o número 1 porque sou o número 1 em todos os momentos da minha vida. Sou o número 1 para mim mesmo, faço o que eu realmente gosto e vivo feliz, então posso dançar junto com o meu sobrinho, com um cachorro, até mesmo no ponto de ônibus começar a dançar… Ganho experiência em todas as ocasiões. A mesma energia e espírito que eu danço no ponto de ônibus eu posso dançar em um filme de comédia ou em um campeonato mundial. Resumidamente, conquistando espaço!

MA: Sabemos que São Paulo tem um grande cenário Hip Hop . Como é o cenário Hip Hop no sul do país? Há muito incentivo ao Break Dance e outras artes por lá?

Neguin: Sim, São Paulo é onde tudo começou aqui no Brasil, então com certeza lá está concentrada a maior potência do Hip Hop. Mas os outros Estados vêm ganhando seu espaço. O sul vem se destacando há muito tempo. Principalmente em Curitiba, há várias equipes ótimas, além de encontros semanais para os dançarinos no Shopping Itália. Mas o incentivo para nós, b-boys, é mínimo. Realmente não temos nenhum incentivo vindo de órgãos políticos e etc.

A maioria dos dançarinos segue em frente com investimento próprio, sem apoio, sem incentivo. É uma situação nada confortável, pois poderia ser diferente se tivéssemos mais oportunidades para mostrar o nosso talento!

MA: Qual o maior obstáculo para quem quer se profissionalizar como B-boy no país?

Neguin: Acredito que o obstáculo seja, muitas vezes, a falta de reconhecimento e capacidade que cada dançarino tem para ser profissional. É a mesma situação do futebol, são milhares de talentos espalhados em todo canto, mas se profissionalizar é para poucos. Então temos que angariar recursos vindos do trabalho individual de cada dançarino que, com sua experiência, estará conquistando seu espaço profissional.

MA: Quais os seus planos futuros?

Neguin: Manter minha carreira profissional competindo, trabalhando, produzindo meus próprios eventos. Costumo não ter muitos planos, apenas procuro viver o momento e, claro, dar sempre passos gigantescos.

Fotos: Red Bull Photofiles. Confira abaixo a performance de Neguin contra o holandês Just do it, na final que deu o título ao brasileiro.