Literatura

Saca-Rolhas nosso de cada dia

Por Simone Ribeiro, @moluska (Publicado originalmente em fev/11)

Dez contos que abordam fatos do nosso cotidiano, que causam indignação, comoção ou simplesmente nos fazem rir estão reunidos no livro Saca-Rolhas, do autor Roberto Domingos Taufick e que já chega batendo recordes por ser a primeira obra no Brasil a ser lançada em formato digital, áudio e impresso. O Midiativa bateu um papo com Roberto para saber quais são os gargalos da sociedade que foram abertos em sua obra, Saca-Rolhas.

MA: Saca Rolhas é sua primeira obra literária? Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Saca-Rolhas é o meu segundo livro de contos. Antes dele, lancei em parceria com o diplomata Ruy Hallack o 7 Selos, mais erotizado. Saca-Rolhas é fruto, essencialmente, da indignação com a cordialidade – aquela cordialidade flagrada por Sérgio de Holanda e que torna a sociedade brasileira tão vulnerável à malandragem, ao cabresto, ao nepotismo. Uma indignação que se estende à própria incapacidade de as pessoas perceberem que repetem, no seu microcosmo social, a corrupção que  tanto criticam no macrocosmo político brasileiro.

MA: O que significa para você ser o autor pioneiro no Brasil a lançar um livro, simultaneamente, nos formatos digital, audiobook e impresso?

Se me permite, tenho a satisfação de conseguir, ainda, o ineditismo de ter um livro comerciado na Amazon e como aplicativo da Apple, o que é fruto do formidável trabalho das meninas da Caki Books.

Trabalhando com uma editora multimídia, tive a condição de disponibilizar o meu livro da forma mais ampla ao público: o livro digital alcança as pessoas em todo o mundo; o audiobook, prestigia não só o mercado específico dos deficientes visuais/analfabetos/infantil, mas abre a possibilidade de ouvir o livro enquanto se faz uma viagem ou se estaciona no congestionamento de uma grande cidade; o impresso, por sua vez, continua a ser importante, dado que permanece como a forma de absorção literária no Brasil por excelência. Mas, se seguirmos o exemplo dos EUA, em breve os livros digitais e o audiobook estarão em lugar ainda mais promissor.

MA: No ano passado o livro ficou entre os mais vendidos de um famoso site de compras na internet. Qual a importância de se ter um livro em formato digital?

Especialmente para um autor estreante, as mídias hoje ainda consideradas alternativas, como a digital, são a forma mais simples de divulgar com sucesso o trabalho. Estar na lista de best sellers não é um objetivo per se; representa que o seu trabalho está sendo divulgado. Ninguém publica para não ser lido. Ou, então, bastaria guardar dentro de uma gaveta depois de escrever.

MA:  Como você vê o mercado literário brasileiro atualmente?

O mercado brasileiro ainda é muito restrito. Poucas pessoas lêem literatura. Isso restringe o acesso de bons autores as editoras com capacidade de colocá-los no mercado. E as grandes editoras, por vezes, acabam, por esse mesmo motivo, selecionando livros que pouco acrescentam na vida de uma pessoa. Isso leva a que bons autores optem por não lutar para entrar no mercado; acomodam-se às margens e permitem que as pessoas continuem a consumir muito material de baixa qualidade.

Oras, o escritor é um romântico, é um apaixonado. Antes de tudo, deve acreditar que as pessoas merecem a experiência de bons livros. Mas enquanto não se sentirem chamados a lutar para entrar no mercado, o vocábulo ‘mercado’ continuará sendo um palavrão para muito deles.  Chama-se isso de seleção adversa. Muita gente boa deixa de entrar porque acha que o mercado não é um lugar bom. Isso é um equívoco: o mercado é o lugar que permite que a obra de um bom autor entre na vida das pessoas e a enriqueça.

MA: De que forma você acredita que a internet ajuda os novos autores ?

A internet facilita a divulgação por meio dos blogs, especialmente. Os autores da FLAP (o festival literário alternativo a Paraty), por exemplo, que representam uma salutar alternativa a muita coisa que se publica hoje, são usuários contumazes dessa ferramenta. Eu usei dos blogs até publicar o meu primeiro livro literário. Estou traçando o mesmo caminho na área jurídica.

MA: Se tivesse uma palavra para definir seu livro, qual seria? E o que significa o título Saca Rolhas?

Bomba. Essa definição não é minha, mas do meu agente Andrey do Amaral, que tem feito um brilhante papel de divulgação da obra. O livro é uma explosão de denúncias e de indignação represados. O uso do livro para expressar essa ira é representado pela rolha sacada de uma garrafa daí ‘saca-rolhas’, tão bem representado na ilustração do meu caro Elder Galvão. A propósito, a ideia do título foi da minha esposa Ana Luiza.

MA: Quais são as suas influências literárias?

O livro tem uma forte influência de Bukowski e Rubem Fonseca. O ambiente sórdido, as palavras muitas vezes de baixo calão. A retratação do submundo. Mas as minhas influências literárias estão, sobretudo, nos clássicos da literatura universal, que eu devorei da biblioteca de mamãe. Pense no Germinal de Zola, nos contos de Cervantes, em Balzac…

MA: Que livro você esta lendo atualmente?

Estou lendo o que chamo de a versão brasileira cibernética de ‘O Mundo de Sofia’: o ‘Abilolado Mundo Novo’, do surpreendente Carlos Maltz, ex-Engenheiros do Hawaii. Estou debruçado sobre a criação de uma forma de expressão própria, ponto alto desse livro que fomenta o conhecimento filosófico de uma forma simples e atual.

MA: Você já esta preparando algum outro livro ou já tem alguma ideia para um futuro livro?

Sim, o próximo livro, provisoriamente intitulado ‘A fita rosa’, já está pronto e registrado na BN. Ali eu trato de recordações tristes. É uma obra de nostalgia e críticas sociais à forma com que somos todos criados.